terça-feira, 26 de maio de 2020

Longas Palavras Perdidas (Parte 6)

Olá, Pessoal!
Deixo-vos hoje a sexta parte do conto Longas Palavras Perdidas.
Tenho lido as vossas "apostas" sobre o que acham do mistério. Todos estão a falar da violação... Não vou dizer nada acerca disso, fiquem com a sexta parte que terá mais algumas revelações.

OBS: Fiquem atentos ao narrador e tentem entender o mistério o mais rápido que conseguirem.
Avisando ainda que apenas os excertos/trechos escolhidos das músicas foram a inspiração para aquela pequena parte do conto.

Longas Palavras Perdidas (Parte 6)

"Longas palavras perdidas" - Letra da música.

Música:





– Quem é ela? – Perguntou Rafael, o ex namorado da rapariga, a uma enfermeira.
– Mariana.
Ele pareceu surpreendido. Não fazia ideia que a ex estaria naquela cama de hospital. As notícias até ele correram mais devagar.
– E têm visto o João aqui?
– O namorado dela?
– Eles não são namorados.
– Sim, temos visto um rapaz. Parece bastante deprimido. Também tem surgido uma outra jovem. Joana.
– Ah, essa é uma ex amiga dela. Ela ajudou o meu amigo a reduzir a pena.
A enfermeira afirmou com a cabeça.
– A rapariga vai recuperar? – Ele voltou a perguntar.
– Ela está em coma, não sabemos.
– Mas ela parece feliz.
– Há estudos que comprovam que as pessoas durante o coma estão a sonhar. É provável que ela esteja a ter bons sonhos.
– Longas palavras perdidas. Quando acordar nada do que ela sonhou vai acontecer.
– Não seja pessimista.
– Não sou pessimista, senhora enfermeira, estou a ser realista.
A enfermeira sorriu, afastando-se de seguida.

"Eu não consigo encontrar palavras para falar" - Letra da música.

Música:





– A Mariana continua em coma? – Perguntou um amigo a Rafael.
– Sim. Ninguém sabe até quando.
Eles bebiam num café do bairro.
– A riquinha ficou assim por causa do João?
– Sei lá, meu. Ela já não era boa da cabeça. Acabou por terminar comigo por causa de nada.
– De nada? Ela quase morreu.
– Tiroteios há sempre por aqui durante a noite. Ela veio comigo porque quis.
– Ela veio contigo porque és um idiota. É diferente. E ela é ingénua. Isso viu-se perfeitamente.
Rafael bebeu um gole da sua bebida.
– Eu não acredito que ela tentou o suicídio por causa daquele gajo. – Lamentou ele.
– Existem doidas para tudo. E tu já sabias o que te esperava. Todos viram como foi a relação dela com o João.
– Olha, nem quero falar sobre isso.
– Mas vais continuar a visitá-la?
– E digo-lhe o quê? Vou ficar a olhar para ela a ter o seu sonho romântico com o João?
O amigo riu-se.
– Bem visto.

"Dizem que o ódio foi enviado" - Letra da música.

Música:





– Olha só como a vida é irónica. – A rapariga falava com ódio na voz. Era Joana, a jovem que ajudou João a sair mais cedo da cela. Ela não era amiga de Mariana. Desde que foi traída pela colega de turma no quinto ano que a jovem ganhou raiva por ela. A vingança corrompeu-lhe o coração.
Mariana estava serena, ligada a máquinas. Existia um "pipi" irritante.
– Espero que apodreças aí mais tempo.
Mariana continuava serena. Ninguém sabia se ela ouvia as outras pessoas. Ninguém sabe se alguém em coma ouve realmente outra pessoa.
Joana é filha de um guarda prisional e da mesma classe social de Mariana. As possibilidades dela poder salvar um criminoso são grandes. Ela leva o trabalho do pai como ajuda para as suas armas contra a ex amiga.
Antes de sair do quarto de hospital, depois de dar uma última olhadela a Mariana, ainda falou:
– Nunca vou deixar-te ir...

Glossário:
Meu - linguagem entre jovens portugueses que substitui o nome próprio.
Gajo - rapaz.


Espero que tenham gostado!
Nesta parte é revelado o nome da personagem principal: Mariana. E também o nome da ex amiga da Mariana: Joana.
A vida pessoal de Joana também já foi um pouco revelada, assim como o forma como surgiu a rivalidade entre Joana e a antiga amiga.
Será que estão a entender mais alguma coisa?
A próxima parte será postada em breve!

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Longas Palavras Perdidas (Parte 5)

Olá, Pessoal!
Hoje comemora-se o dia do Autor Português. Sendo eu portuguesa, decidi postar esta quinta parte do conto hoje.

OBS: Fiquem atentos ao narrador e tentem entender o mistério o mais rápido que conseguirem.
Avisando ainda que apenas os excertos/trechos escolhidos das músicas foram a inspiração para aquela pequena parte do conto.


Longas Palavras Perdidas (Parte 5)

"Eu fiz com distâncias. Eu fiz com motivos. Eu fiz com perguntas" - Letra da música.

Música:




Dias mais tarde, João foi visitar um velho amigo na prisão. Ali contou-lhe sobre a seu regresso à liberdade.
– Eu vi-a novamente. – Desabafou ele.
– A rapariga?
O velho amigo do João era mais velho do que ele. Já devia ter passado dos quarenta anos. Já aparentava alguns cabelos brancos. Poucos, mas persistentes. Ele ajudou o rapaz nos piores momentos.
– Ela terminou com um amigo meu. Ficou apavorada com o tiroteio que houve no bairro.
– Aquela não é a vida dela. Não é feita para estar ali.
– Eu sei. E ela deveria saber no dia em que eu decidi terminar com ela.
– Tu não terminaste com ela.
– A violação foi uma armação desse meu amigo. Foi ele quem a violou, não fui eu. Eu terminei com ela antes que a história da violação fosse confirmada.
– João, tu tens que seguir com a tua vida para a frente, não tens que olhar para trás. Estás em liberdade, tens que recomeçar a tua vida do zero.
– E vou para onde? Mal consigo trabalho. Sou um ex presidiário. Além disso tenho que ajudar a minha mãe.
– A tua mãe consegue sobreviver sozinha. Esqueceste-te que ficaste aqui cinco anos? – João ficou calado – Tens que recomeçar a tua vida, amigo. Tens que esquecer essa rapariga. Ela agora já entendeu que está a viver uma vida que não é confortável para ela.
– Mas se ela soubesse...
– Se ela soubesse o quê?
– Se ela soubesse a verdade. Se ela soubesse que não fui eu.
– E vais dizer o quê? Ela não te vai ouvir.
– Talvez pela amiga dela que me ajudou.
– Aquela que conseguiu que ficasses aqui dentro apenas cinco anos? Tu sabes que ela não é realmente amiga da rapariga, não sabes?
– Eu sei, mas eu podia tentar.
– Olha, tu é que sabes.
O homem tinha razão. Apenas o João sabia o que fazer.


"Porque nós somos estranhos quando o nosso amor é tão forte?" - Letra da música.

Música:





O amor é realmente cruel. O rapaz foi a casa dela cheio de coragem. Mas que tristeza. A pobre rapariga ficou ainda mais frustrada e amedrontada. Gritos, choro, pedidos de desculpas que não valeram nada, e, no fim, apenas conversa estagnada. Ele arrependeu-se. Ela... bem, ela... acabou no hospital.
Tentativa de suicídio.

"Eu quero alguém que me ame por quem eu sou" - Letra da música.

Música:





Ser aceite em sociedade sempre foi o maior sonho do João, mas ele sabia que as coisas não eram assim tão simples. Dizer que vivia num bairro já era um duro golpe. A rapariga também lhe tinha dado um outro golpe. Uma menina rica, de boas famílias, tinha perdido a confiança nele. Não que ela fosse o mais importante... bem, na verdade até era. Ela devia ser a primeira a olhar para ele com outros olhos, tendo em conta que era a primeira a viver fora da "comunidade". Ele só queria alguém que gostasse dele por quem ele era, não que olhasse para ele como um criminoso.
Ele fracassou bastante... Sempre foi assim.

"Eu vejo-te" - Letra da música.

Música:





Na cama do hospital tudo parecia negro, mas nos sonhos dela tudo era magia. Ao lado do João, ela conseguia viver feliz. Agora ela estava calma, em paz. Ela vivia através dele e ele vivia através dela. Sendo um sonho ou não, ela só queria que aquilo nunca terminasse. Ela agora conseguia viver no bairro, sentir-se bem ali, conseguia ver através dos olhos dele. Conseguia ver o lado bom daquele lugar. Agora via a vida de outra forma...
Que sonho...
Mas era apenas isso... Um sonho.


Espero que tenham gostado!
Muita coisa aconteceu nesta quinta parte. Tentativa de suicídio, sonho... Já conseguiram entender alguma coisa? Algum mistério?
A próxima parte será postada em breve!

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Longas Palavras Perdidas (Parte 4)

Olá, Pessoal!
Hoje deixo-vos a quarta parte do conto Longas Palavras Perdidas.
Espero que gostem!

OBS: Fiquem atentos ao narrador e tentem entender o mistério o mais rápido que conseguirem.
Avisando ainda que apenas os excertos/trechos escolhidos das músicas foram a inspiração para aquela pequena parte do conto.


Longas Palavras Perdidas (Parte 4)

"Andei por tantas ruas e lugares, passei observando quase tudo, mudei, o mundo gira num segundo" - Letra da música.

Música:




Ele caminhou por todos os lugares novamente. As ruas estavam na mesma. Nada tinha mudado em cinco anos. A polícia continuava a fazer visitas ao bairro, tiroteios surgiam a cada noite... Como é que a vida lá fora tinha continuado igual? Em cinco anos ele mudou, mas o bairro dele... A tristeza ficou marcada no rosto do rapaz. Nada tinha mudado. Nada. Absolutamente nada. Um antigo amigo aproximou-se, após uma primeira visita ao bairro.
– Já saíste? – Perguntou ele, sério.
– Sim, Filipe.
– Liberdade condicional?
– Não. Estou em liberdade. Mesmo em liberdade.
– Ouvi que tens feito rap no xadrez.
– Sim, espero conseguir encontrar uma editora.
– Tu sabes que temos uma editora aqui. Vais fugir dos teus amigos?
– Eu sei o que vocês fizeram. – O rapaz fez uma pausa – Como soubeste disso?
– Disso o quê?
– Do rap.
– A tua mãe contou a toda a gente. Está toda contente com o seu menino músico. – O amigo riu-se. Não era um riso sincero. Ele estava a querer brincar com o rapaz.
– E eu serei.
O ex amigo olhou sério para ele.
– Tu andaste a fumar erva lá dentro, ou o quê?
– Não se pode fumar lá dentro. – Respondeu, inocente.
– Não me faças rir. Ela passa lá dentro sim.
– Que eu saiba nunca estiveste preso.
– Estive sim, por tráfico de droga. Acabei em prisão domiciliária.
O rapaz afirmou com a cabeça, entendendo.
– Voltaste a falar com a miúda?
– Nunca mais falei com ela. – O rapaz ficou sério.
– Fazes bem. Depois de teres sido preso, ela acabou por ficar aqui com um outro gajo.
– Quem?
– O André. – O amigo bufou – Toda armada em não me toques e no fim acaba na cama com outro gajo daqui do bairro. Sabes que ela anda a ser falada por aqui, não sabes?
– Não.
– A tua mãe não te disse nada?
– Eu preferi que ela não me falasse nada.
– Acho que fizeste bem. Podias ficar mais marado. Mas ela anda por aqui a rondar com ele. Ainda namoram. Acho eu.
O rapaz afirmou com a cabeça.
– Fica bem, João.
O ex amigo afastou-se. O rapaz não disse nada. Ele sabia que as palavras eram falsas. Olhou para o céu. Estava a escurecer. Vinha chuva. Decidiu ir para casa. A sua casa.


"Para aqueles que se assustam facilmente, sugerimos que afastem-se agora" - Letra da música.

Música:




– Olha só o que fizeste! – Gritava a jovem ao namorado.
– Podemos ir até a minha casa, está mais perto.
A rapariga tinha o sumo derramado na sua camisola. Estava mais quente dentro do carro. Ela não quis ir até casa dele, mas não teve outra opção. No meio do caminho, a rapariga começou a sentir-se insegura. Ouviam-se vozes violentas na rua abaixo, a rua onde estava a casa do namorado. Ela parou, amedrontada.
– Vamos mesmo para lá? – Perguntou ela.
– Porquê?
– Estou a ouvir muito barulho.
– A esta hora da noite acontece sempre. Não te preocupes.
Pois. Ela deveria ter-se preocupado. Dois gangs rivais começaram aos tiros quando eles entraram na rua. Ela ainda conseguiu ver João, o ex namorado, a sair de casa. Ele também a viu. O namorado dela ficou parado, sem fazer nada. João chamou-o.
– Rafael? Leva-a daqui. Não queres morrer.
O rapaz concordou e levou a rapariga para longe da rua, levando-a novamente para o carro.
– Acho que é melhor trocares de roupa em tua casa. Eu levo-te lá.
Ela só afirmou com a cabeça, mas estava apavorada. Durante a noite mal conseguiu dormir. A vida ia escapar-lhe das mãos.

"Sinto-me tão claustrofóbica aqui" - Letra da música.

Música:





No dia seguinte, após conversar com uma amiga decidiu dar um fim. Ela não conseguia voltar àquele bairro. Decidiu terminar com o namorado. Foi uma conversa dura e fria. Diferente do João, ele não compreendeu. Palavras sérias, uma discussão, mas cada um decidiu seguir o seu caminho. Quando se viu sozinha novamente no seu quarto teve vontade de chorar. E foi o que fez. Chorou durante alguns minutos. A vida foi realmente cruel com ela. Sentia-se claustrofóbica por algum motivo. Talvez por sentir-se encurralada no bairro, não se sentir bem naquele lugar, de não pertencer àquele lugar. Que vida triste.

"Não, não é a escola que dita os meus códigos" - Letra da música.

Música:





A escola não está preparada para ensinar todos os jovens. Os de classe alta, os de classe média alta, os de classe média, os de classe média baixa e os de classe baixa. Na verdade, o ensino não é dado a todos por igual. Ainda há um certo medo quando se passeia num bairro social. Ainda há medo dos tiroteios, dos negros, das rusgas, de se ir preso. Ainda há uma sensação de vergonha quando alguns jovens que vivem no bairro comentam que vivem no bairro. Ainda há preconceito. Ainda há amargura. Ainda há ódio. Ainda há quem feche os olhos à taxa de suicídio de jovens que vivem em bairros sociais. Ainda existe o medo de tudo o que se é diferente.
Quando é que isso mudará?
Não se sabe.
Ninguém sabe.

Glossário:
Miúda - Garota (PT/BR).


Espero que tenham gostado!
Já sabemos o nome do personagem principal: João. Filipe é um "amigo" dele. André é o novo namorado da jovem... Ou seria Rafael?
A próxima parte será postada em breve!

domingo, 17 de maio de 2020

Longas Palavras Perdidas (Parte 3)

Olá, Pessoal!
Hoje deixo-vos a terceira parte do conto Longas Palavras Perdidas.

OBS: Fiquem atentos ao narrador e tentem entender o mistério o mais rápido que conseguirem.
Avisando ainda que apenas os excertos/trechos escolhidos das músicas foram a inspiração para aquela pequena parte do conto.


Longas Palavras Perdidas (Parte 3)

"Não quero nenhum gangsta" - Letra da música.

Música:




Dias mais tarde, ela decidiu confrontá-lo. Foi uma conversa infeliz e dura. Ele continuou a negar a violação e ela desistiu dele.
– Nós não somos iguais. – Dizia ela.
Ele falava de uma "conspiração marada" que fez com os "amigos".
– Bastante conveniente. – Falou ela.
– Mas é verdade. – Continuava ele.
A verdade é que a conversa foi a conclusão de tudo. Eles terminaram, cada um seguiu o seu caminho. Ela foi seguida por um psicólogo e ele foi preso novamente. Quinze anos de prisão. Acabou por ter pena reduzida por uma "amiga" da ex namorada. Cinco anos. A jovem nem quis acreditar quando viu a pena reduzida.
Ele sairia da prisão aos trinta e um anos. Já ela continuaria dentro de uma prisão para sempre.
Eles eram realmente de mundos diferentes. Nem queria acreditar que tinha namorado com ele. Ele conseguiu encantá-la com as palavras bonitas, as flores, os jantares... Até a descrição sobre a vida cruel dele encantou-a. Que ingénua. Sim, ela foi. Ela pensou que seria um conto de fadas, como o filme da Disney "A Dama e o Vagabundo". Foi tudo uma mentira. Depois daquele momento triste ela só pensava em ter realmente amor na sua vida e não uma página vazia cheia de mentiras.


"Este é o primeiro dia do resto da minha vida" - Letra da música.

Música:




Ele passou os cinco anos na prisão a criar rimas. Histórias sobre a sua vida foram escritas à mão, com uma letra redonda. Os violadores não passam muito tempo no xadrez, mas ele conseguiu manter-se vivo por lá com a ajuda do hip hop. Ao fim de um mês já tinha criado respeito por entre os colegas. Uma vida dura, diziam eles. Mas o rapaz não queria saber de opiniões. Ele conseguiu encontrar uma nova vida. Uma vida diferente. Uma vida que ele desconhecia.
A mãe via melhorias na vida dele. O desgosto era imenso, via-se no rosto da pobre mulher, mas conseguia ver-se também um misto de orgulho. O seu filho querido tornou-se um rapper e contava a sua vida sem mentiras.
A prisão fez bem à vida dele... Aos trinta e um anos saiu da prisão. Livre. Quer dizer, livre falando da prisão. Na verdade, ele já se tinha libertado há muito tempo. Engraçado como os amigos do bairro nunca foram realmente seus amigos, mas sim os colegas de cela. A vida é uma ironia.
"Este é o primeiro dia do resto da minha vida" - Sussurrou ele para si mesmo.
Sim, era.

Glossário:
Xadrez - Prisão

(P.S - Possibilidade de não entendimento da linguagem popular).


Espero que tenham gostado!
Afinal, muita coisa passou, o rapaz foi mesmo preso após a violação...
A próxima parte será postada em breve!